Pré-natal do João: Convencional x Humanizado

Assim começa uma história

Engravidei pela primeira vez em setembro de 2011, mas perdi o bebê antes de completar os três meses de gestação. Foi uma experiência dolorosa, apesar de saber que poderia engravidar novamente. Essa gravidez despertou em mim a curiosidade sobre assuntos relacionados ao pré-natal, ao parto e à maternidade. Então, quando engravidei do meu filho João, também no mês de setembro, mas no ano de 2012, estava convicta de que teria meu filho de parto normal. Não tenho nada contra a cesariana. A cesária, quando necessária, salva vidas. Minha gravidez era de baixíssimo risco, então não havia necessidade de marcar uma cirurgia para meu filho nascer. Imaginava que a dor de parir, por mais que fosse forte e intensa, tinha uma razão de ser. Não queria ter meu filho sem nenhum trabalho. Acredito que a mulher tenha de entrar em trabalho de parto antes de o filho nascer, e que o trabalho de parto é trabalho mesmo, não são férias. Confiava muito na fisiologia da mulher e no processo normal de um parto. Sempre fui encorajada por minha mãe, que teve seus filhos de parto normal. Ela sempre me dizia que seus partos foram rápidos, porque ela se concentrava em parir e não em desistir.

Pré-natal convencional

Não sabia que seria tão difícil encontrar um médico que aceitasse e apoiasse minha decisão pelo parto normal. Os médicos nas consultas sempre davam a entender que existia um risco desconhecido, mas iminente, no meu corpo de mulher grávida e que, no fim da gestação, era certo vir à tona, e que os planos de parto normal não aconteceriam, infelizmente. Até o fim da gestação, não encontrei um médico que realmente fizesse meu parto normal, e as alternativas para meu parto eram: ser assistida por um médico plantonista ou recorrer à rede pública. Troquei algumas vezes de médico até encontrar um que disse que faria meu parto normal, mas avisou antes de tudo: “…SE tudo ocorrer bem até o final da gestação”. Não imaginava que aquele “SE” fosse um tão provável e concreto “Não”. Assim que pôde, logo esqueceu, e nas consultas seguintes já sugeria que meu filho nascesse de uma cesárea, numa quarta ou numa sexta-feira. Praticamente em todas as consultas eu tinha que lembrar: “meu parto é o normal, lembra?”.

No meu pré-natal, o que mais me incomodava eram as consultas médicas. Voltava a sentir aquela tensão de fazer uma prova no tempo de escola: um clima de avaliação intensificado ainda mais com o atraso do horário da consulta. O problema não era o médico em si, mas o protocolo padrão adotado: verificar a pressão, pesar na balança, medir o fundo uterino e escutar os batimentos do bebê, com a finalização: “tá tomando a vitamina?” ou “tem alguma dúvida?”. Nesse momento de tirar dúvidas, abria meu caderno com algumas perguntas anotadas e escutava a voz sussurrada do médico “eita“. Daí, já desconfortável, escolhia apenas as duas maiores dúvidas, perguntava e fechava logo o caderno para me concentrar nas respostas. Eram dúvidas sobre o parto. As respostas eram vagas e sempre o assunto ficava pra depois.

Entendeu o padrão? Medem, medem, medem, e quando pesam, gostam de dar uma bronca naquela grávida que está cansada de saber que tem que controlar o peso. Depois da consulta, refletia: “como meu filho vai nascer com um médico que não me explica como será o parto?”. Se preocupam tanto com o padrão, que não reservam tempo para esclarecer as dúvidas. Lembro-me bem de uma consulta em que levei meu rascunho de Plano de Parto para alinhar minhas escolhas com as dele, e ele logo disse que, um “parto sem analgesia”, quer dizer, um parto mais natural, “não seria possível”. Foi grosseiro em dizer que eu estava querendo personalizar meu parto. Dizeres, no minimo, conflitantes, já que o parto era meu, mas eu não podia querer nada. Eu queria participar do processo, planejar detalhes, talvez fosse a primeira paciente dele com este interesse insistente. Eu não queria ser mais uma grávida numa linha de produção de partos no automático. Ele notou minha total decepção e tentou juntar o leite derramado dizendo: “Não se preocupe! Sua gravidez está fluindo bem para um parto normal. Faço parto há 30 anos, deixe que com o parto me resolvo. Você tem tanta coisa pra comprar e decidir… Vai dar tudo certo, blá blá blá…”. Naquele dia cheguei à conclusão de que não contaria com ele no meu parto.

Continuei indo às consultas de pré-natal para acompanhar as fases da gestação e saía satisfeita em ouvir os batimentos do meu filho. Era uma emoção enorme ouvir meu bebê. Lembro-me da primeira vez que eu e meu esposo ouvimos o coração do nosso filho. É indescritível o que sentia ao ouvir. Era impossível não ficar cheia de vida, vida por nascer, um alívio, um querer-bem a quem não conhece … é algo complicado de explicar, mas ótimo de sentir. Na primeira vez que ouvimos o “iub- dub” de nosso filho, vi lágrimas nos olhos de meu esposo e fiquei emocionada com um choro preso. Fiquei tão empolgada também que queria que aquele momento nunca acabasse, mas era curto, tinha que logo me levantar e sair. As consultas de pré-natal me fizeram ver que precisaria buscar informações para sanar minhas dúvidas de outro modo. Assim, comecei a ler muitos artigos, alguns científicos inclusive, mais relatos de partos na internet e livros. Parecia uma jornada de trabalho ou um curso bem avançado de alguma coisa. Mas era super prazeroso.

Gravidez - Pré-Natal Parto Normal Natural Humanizado
Encontrar informações cientificamente corretas e participar de grupos de apoio a gestantes me libertaram dos mitos relacionados ao parto. Era como trilhar um caminho até então escuro, mas agora usando uma lanterna.

Pré-natal humanizado

Lendo relatos e relatos de parto, fui adentrado no universo de partos humanizados, tanto hospitalares como domiciliares. Os partos domiciliares eram os que eu mais gostava de ler, simplesmente não conseguia parar até chegar ao fim, quando imaginava como queria que fosse a chegada do meu João. Queria recebê-lo da melhor forma possível e com todo amor que tinha guardado. Na internet, descobri contatos de doulas e referência a um grupo de apoio à gestante, conhecido como Isthar. Comecei a frequentar seus encontros mensais e meu objetivo era entender sobre partos normais. Estava focada em parto normal hospitalar. Frequentava na companhia do meu esposo, aliás, ele se fez presente em tudo. A confiança dele e o apoio me ajudaram e me acolheram. Nesses encontros, conheci mães que pariram em casa. Imaginava que fosse mais fácil achar um unicórnio do que encontrar mães com essa experiência aqui no Brasil-Ceará-Fortaleza. Parecia que estava plugada numa tomada nos encontros, aquilo me alimentava de verdade, não apenas ouvia, mas ficava imaginando se fosse eu.

Apesar da minha surpresa, atualmente há uma procura cada vez maior de mulheres que optam por partos humanizados em casa. Estudando sobre partos normais hospitalares, cheguei à conclusão de que não são normais. Há muitas intervenções e procedimentos desnecessários, e dependendo da equipe de atendimento, são desrespeitosos e violentos. Não é à toa que muitas mulheres vão para uma cesárea. Estava me convencendo a passos curtos, já entrando no último trimestre de gestação, que queria um parto normal domiciliar. Eu só entendi meu conflito interno quando a parteira me surpreendeu com a pergunta: “porque você quer um parto domiciliar?”. Pensei: “agora sou eu quem tenho de responder. Antes, era eu quem fazia as perguntas, e agora, sou eu quem tem de ter as respostas”. Naquele momento, caiu minha ficha: “porque estou tendo essa conversa se não estou certa de que quero um parto domiciliar? Ou quero?”. Bem, eu pensava que não queria, mas meu comportamento era outro. Consegui me sair da saia justa por dizer que queria tirar dúvidas primeiro. A enfermeira obstetra Semírames, carinhosamente Milla, a futura parteira do João, prontamente me tirou as dúvidas de forma simples, calma e simpática. Como estava com a cabeça confusa e preocupada demais com os riscos que poderiam vim a acontecer em um parto domiciliar, ela sugeriu que meu parto fosse humanizado hospitalar. Na hora essa opção parecia um bálsamo para meu cérebro. Imaginei tudo que eu queria, mas dentro de um hospital. Porém, não demorou muito eu também não queria este parto.

No hospital ou em casa?

Eu não queria mais que fosse em um hospital. Não me sentia segura em parir em um hospital e não confiava que um médico fosse simplesmente me deixar parir sem intervir. Queria um parto natural, saudável e positivo para mim e para meu filho. Não queria analgesia, nem episiotomia. Confiava muito no meu corpo de que nada disso seria necessário. Estava certa de que tudo ocorreria bem. Eu queria que fosse na minha casa, na companhia do meu esposo e com todo amor que poderia acolher meu filho. Para parir assim teria de ser na minha casa, não conseguiria isso em um hospital. Fui amorosamente acolhida no meu pré-natal humanizado com a doula Kelly e a enfermeira obstetra Semírames, chamada de Milla. Foi com elas que aprendi e me fortaleci no final da gravidez. Foi com elas que obtive muitos esclarecimentos sobre parto, e tudo se encaixava perfeitamente com minhas escolhas. Podia falar dos meus medos abertamente. Sentia conforto, amor e respeito nas consultas humanizadas com elas. Na realidade, eram conversas descontraídas e o mede, mede,mede e pesa ficavam para o final.

Depois que eu e meu esposo decidimos pelo parto humanizado, tudo ficou mais fácil e leve. Meus sentimentos conflitantes só acabaram após muita informação, estudo e encontros. Começamos a planejar os detalhes do parto, inclusive o plano B. Sim: Plano B! Ele tem que existir como plano secundário, caso haja necessidade de transferência para uma maternidade. Torcia para minha gestação continuar de baixo risco e passar da 37ª semana, porque antes desse período seria um nascimento prematuro e precisaria de assistência hospitalar. Estava tranquila e confiante de que tudo daria muito certo. Meu esposo, assim como, eu resistiu no início à ideia. Ele se focava muito nos riscos, o que é razoável, pois os riscos existem em todo parto. Entendemos juntos, que por incrível que pareça, em uma gestação de baixo risco, é mais seguro que o parto aconteça em casa que no hospital. Ele me apoiou e acreditava que eu seria capaz de parir como planejava.

 

Gravidez - Pré-Natal Barriga - Parto Normal Humanizado
Antes do nascimento já existia uma comunicação tão complexa quanto sutil com meu bebê. Uma troca íntima e profunda de como seria o nascimento.

Num parto em casa, as parturientes não podem ter três coisas: medo, culpa e pena, como a própria Milla nos ensinou na preparação para o parto. Eu e meu esposo estávamos unidos na decisão, e juntos trabalhamos todos os nossos medos e aspirações. No fim, não tínhamos mais medos, tínhamos apenas a vontade de que o momento logo chegasse. No final da gestação, sentia contrações de preparação, mas não era o trabalho de parto ainda. Meu bebê estava bem encaixado, na melhor e mais fácil posição de saída para um parto vaginal, conhecida como dorsal esquerda. Escutava muita música, assistia filmes, nadava bastante. Sentia-me disposta e saudável.

Quando passei das 38 semanas, meu médico do pré-natal me pressionava para uma cesárea, e eu o convencia a esperar um pouco mais. Ele só concordava quando eu o fazia lembrar que eu poderia chegar até a  42ª semana segundo a Organização Mundial da Saúde(OMS) para induzir um parto normal ou fazer uma cirurgia, já que não existia um quadro de risco. Combinei com ele que permaneceria em casa durante o trabalho de parto e iria para o hospital perto da fase expulsiva. Poderíamos nos encontrar no hospital, mas caso ele não tivesse disponibilidade,seria atendida por um médico plantonista. Deixei claro também que estaria com doulas em casa, que me ajudariam durante o trabalho de parto. Assim ele percebeu que não o exigia e que estava disposta a ser atendida pelo plantonista. Sobre a doula ele até comentou que ganharia($$$) meu parto muito fácil. Com 39 semanas entrei em licença-maternidade no trabalho. Achei que meu bebê chegaria logo e a qualquer momento. Meu médico começou a desconfiar que não faria meu parto na 40ª semana da gestação, porque eu estava tranquila e determinada em esperar ainda mais. Acho que ele se sentiu frustrado por não ter conseguido mudar minha opinião. No fundo no fundo, ele tinha feito um trato comigo na primeira consulta de fazer meu parto normal. Ele achava, talvez, que eu mudaria de ideia depois ou que ele conseguiria minar minha determinação quando estivesse mais sensível e ansiosa no final da gestação. Ele tentou indicar a cesárea pelo fato de o meu bebê ser grande. Mas qual era o problema disso? Pais grandes têm bebês maiores, o que é muito relativo. Engraçado que nessa do bebê grande, ele dava muita ênfase principalmente olhando para meu esposo, imaginava talvez que ele fosse discutir o assunto comigo em casa. Alegou também que a cidade é perigosa. Ele lembrava que tanto para nós como para ele, seria perigoso ir para o hospital de madrugada, e até relatava assaltos acontecidos com médicos amigos dele em casos parecidos. Fazia também muitas suposições sobre problemas que poderiam ser diagnosticados somente com exames frequentes como: pouco líquido, circular de cordão e etc. Assim passei a acompanhar a gravidez por exames frequentes no Hospital.

Gravidez - Pré-Natal Parto Normal Humanizado
O parto era nosso! Queríamos passar pela experiência completa de parir. A idéia do médico “fazer” o parto e de “ganharmos” um bebê não nos atraia.

A mulher tem o direito de escolher como quer parir, porém o sistema a convence de que o melhor jeito é por uma cesárea. Eu aprendi na minha jornada de pré-natal que é necessário muita informação para uma mulher conseguir ter um parto normal hoje em dia. Ela tem que estar muito esclarecida, além de determinada na decisão, porque ela tem de se explicar para todos que perguntam por que prefere assim, e ainda para questionar o médico quando este tenta convencê-la de que a cesárea é melhor. Muitas mulheres fazem a cirurgia cesariana por falta de informação e não por necessidade. Vivem uma vida inteira sem saber disso e perdem o momento mais intenso da vida de mulher. Uma experiência única não só de amor, mas de libertação, poder e conquista. As mulheres que optam por uma cesárea não passam pelas dificuldades de atendimento médico que precisei passar. Não deveria ser assim, mas infelizmente é a realidade do nosso país.

“Entre orelhas”

Meu parto tinha tudo para ser fácil, como de fato foi, e minha tranquilidade e determinação eram fortes. O próprio médico chegou a dizer, na última vez que o vi: “você vai ter o filho é em casa”. E ele acertou! Apesar de ser perfeitamente normal na primeira gravidez a mulher passar da 40ª semana, fiquei surpresa quando aconteceu comigo. Tinha tudo para que meu bebê nascesse logo, mas não… até as contrações de preparação que sentira, não vinham mais. Procurei a Milla dois dias antes de o meu filho nascer e, conversando eu, ela e meu esposo, identificamos um bloqueio que sem querer estava criando na minha mente. Quando eu arrumava o quartinho do meu filho, sempre reclamava das prateleiras que estavam faltando.Tentamos comprar numa loja, sem sucesso, e encomendamos a um marceneiro, porém não as tinha recebido. Então sempre reclamava assim: “meu filho, tomara que você nasça depois das prateleiras colocadas”, imaginando o incomodo da instalação. Fazia isso sem perceber. Minha concentração nisso sabotava ou adiava um trabalho de parto que tinha tudo para engrenar. Tem pessoas que não acreditam nisso, mas o trabalho de parto tem muito a ver com os sentimentos e desejos de uma mulher, com a parte psicológica da mulher, a final é a mulher que expulsa o bebê e o bebê trabalha pra sair. Lamento só ter lido livros do obstetra humanista Ricardo Jones depois de meu filho nascer, pois ele explica exatamente isso:

 O parto é algo que acontece entre as orelhas”, me repetia Max o velho adágio das parteiras. Não o procure nas dobras dos tecidos uterinos, nas protuberân­cias ósseas, nas contrações ou nas variações dos hormônios. Ele se encerra nos pequenos grãos de areia de nossos sonhos, na bruma de palavras disper­sas de um passado distante. Ele se refugia nos sussurros de uma menina, na curiosidade infindável que ela carrega e no seu olhar insaciável. O parto e seus mistérios se escondem ao olhar superficial, à análise tímida e ao investigador amedrontado. Para entender o que o comanda, é preciso penetrar nos abis­mos obscuros da alma de uma mulher, lá onde se abrigam seus sonhos e suas tristezas. Quanto mais profundamente mergulharmos, mas nebulosa será nossa jornada. Entretanto, apenas assim poderemos encontrar essa semente. Talvez, apenas uma suposição, a chave para essa questão esteja mesmo li­gada a essa fissura aberrante na ordem natural, a qual chamamos amor. E tal­vez, outra mera suposição, para entender o que acontece entre as orelhas de uma mulher, somente se soubermos como encontrar esta chave.

Depois da nossa conversa com a Milla, cheguei em casa e chorei muito, sentia-me um pouco culpada. Tentei dizer o contrário no outro dia nas conversas com meu filho incansavelmente, explicava que ele nasceria sem as prateleiras mesmo e que aquilo não era mais importante para mamãe. Até cartas escrevi e estas servirão de recordação de nossas últimas comunicações na gestação. Acho que nós dois, eu mais do que o João, entendemos a lição, porque no outro dia entramos na partolândia juntos e sincronizados não só de maneira física, mas mental principalmente.

5 thoughts on “Pré-natal do João: Convencional x Humanizado

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  3. janiele says:

    Esmênia gostei bastante de ficar sabendo um pouco da sua história, fiquei bastante emocionada relembrando tudo que passei na minha gestação, em relação a pressão dos médicos em parto cesárias.
    Eu agora penso que minha filha nasceu logo por conta da minha ansiedade que foi muita, acho que foi isso fez eu entrar em trabalho de parto com 37 semanas… pretendo não comenter esse erro na próxima gestação.
    Esse seu blog é muito bom, gosto muito de ler tudo que você posta aqui, sempre estou por aqui vendo as novidades rsrs. Parabéns e bjs

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